Conto de Achiriua
No distrito de Moçambique, entre Memba e Moma, surge abrupta uma montanha a poucos quilómetros da faixa costeira, a que os achiriuas chamam “Sonho de Deus”. Recoberta de penedos calcinados, cheios de inferno, e uma montanha a abarrotar de lenda, de histórias e da biografia de antigos guerreiros. Transponível de todas as maneiras é uma fontanário dos mais puros, no que sobremodo se refere à vitalidade que empresta à imaginação dos homens.
Os velhos atiram-lhe longos olhares cansados e tecem- lhe elogios repassados de ternura; os mais novos contam episódios de fábula, que se impõem e atordoam como água que lhe desce pelas vertentes e lhe inunda o sopé vastíssimo. Pássaro que faça ninho nas árvores que lhe entretecem o corpo de verdura, é sagrado. E bicho que ali busque coito ou guarida no remanso das gargantas ou na boca das grutas, nas corcovas húmidas, nos plainos desassombrados, é linha de Evangelho, coisa grande e venerável como versículo de Bíblia.
No tempo em que os achiriuas e os lómues se constituiam em caravanas demandando centros comerciais que dessem vazante aos seus produtos, contam os mais velhos que entretinham a rudeza dos camimhos entoando lenga- lengas de saudade, melopeias dengosas em exaltação à montanha “Sonho de Deus”.Ora uma vez (contam os achiriuas) havia um penedo mesmo no pino da montanha. Morreu de amor. O penedo era acessível, a escalada fácil. Uma arvore irrompia brusca do seio do penedo, esgudelhada, uma ávore que amava o penedo com força, mais do que um homem ama uma mulher. Amava- o tanto que irrompia, meiga, do seio dele, ja aberto, conformado, alegre até com a fúria que o dilacerava, parcelava, dividia. Quando o vento, zoeira de todo, experimentava, rajada após rajada, a solidez invulgar daquele amor estranho, observava por entre asssobiadelas, os beijos seguidinhos da árvore no peito forte do penedo, inamovível, todo entregue ao cuidado de a defender dos suspiros boémios do vento amalandrado.
O vento às vezes (contam os achiriuas) punha -se a ciumar… Isto acontecia sempre que se cobria de musgo, em torno as plantas muito verdes, regatos cheios, murmúrio, espuma, muita vida. Então descuidado, um pássaro com modos de gala, vermelho, azul, amarelo, vindo não se sabe de onde, pousava num dos ramos da árvore e pipitava. A árvore ouvia- lhe a canção, muda de encanto, quieta de asssombro a comover, a árvore fazia com o pássaro uma unidade melódica, estruturada longe da verdade abísmica do penedo. E o penedo, com a seriedade patética de um marido traído, punha- se a ciumar.
Ora uma vez, todos os homens de todas as raças- achiriuas, lomués, macuas, mesmo aqueles de mais longe, como os ansengas e os nhunguês-viram ao acordar que o penedo tinha caído, era vulto morto de criatura. E, concluem os achiriuas, quem matou o penedo foi o pássaro. O penedo amava a árvore e não podia admitir que um ser pequenino, só com asas, um pássaro qualquer levasse o tempo a arrebicar notas, canções bonitas, à árvore que ele amava.
E mentem aqueles que dizem que um pássaro pequenino não pode destruir um penedo gigantesco. (Carneiro Gonçalves)
O homem sugerido
Dedicatória
(Ao Gegé em Quelimane)
Havia quarenta e sete anos que Obed serviu a Von Ch. dono de uma enorme propriedade de coqueiros no coração da Zambézia. Entrara para ali aos treze anos e a imagem que retinha na memória sobre a grande mansão onde Von Ch. vivia com a mulher, filhos e alguns netos apoiados por um grande séquito de criados, datavam desse tempo: cedo fora transferido para as plantações. O patrão entendera que era um desperdício prender aqueles músculos todos em trabalhos domésticos.
Obed ficou muitos anos na colheita de coco. Se se juntassem ao comprido todos os coqueiros que galgara em vida, obtinham- se de certeza centenas de milhares de quilómetros de extensão. Feitos agora sessenta anos porém, já a uns sete que só se dedicava ao descasque e secagem da copra. Nunca mais, no entano, saira daquele ambiente permanentemente fresco e fechado, donde retirava tudo o que poderia desejar para viver, era pouca coisa, sim. Mas tinha a impagável vantagem de ser segura. Acontecendo muitas vezes nos últimos tempos pensar na mansão dos patrões, Obed só conseguia reconstituir um descomunal vulto branco de cimento, visão que na sua imaginação de homem simples ganhava foros de gigantismo, dominando no meio do verde húmido e denso do palmar.
Lembrava-se de uma longínqua tarde, na juventude em que demandava o palácio como o único local capaz de lhe fornecer a chave que procurava rumo ao desconhecido, a urgência da liberdade assumida.
Ninguém o havia importunado durante a sua deambulação pela mansão. Ao fim de duas horas a percorrer sucessivamente salas e corredores interminaveis entremeados com jardins bem tratados, sentiu- se confuso e à beira da exaustão. Era no entanto um cansaço mais mental que físico, como se alguém lentamente o tivesse esvaziado de qualquer conteudo. Interrogava- se continuamente sobre o facto inexplicável de ainda se não ter cruzado com ninguém, um simples criado que fosse. Era então tão grande aquela casa! Obed ganhou de repente uma terriível sensação de insegurança como se fosse cair numa ratoeira. Mas nessa altura Obed já nem conseguia imaginar por onde tinha entrado, por onde deveria sair. Era este agora o seu objectivo. Depois de dobrar uma esquina, eis que estaca como se à sua frente tivesse um muro invisível. O que os seus olhos viram era contudo diferente; diante de si esparramava- se um patio aberto com quatro colunas de mármore trabalhado, donde partiam trepadeiras que se abraçavam no topo, formando um tecto de luxuriante imagem. Para lá dele pontilhada por miríades de flores de cores diversas. Qual delas mais viva, que ressumavam um perfume forte e agradável que lhe chegava às narinas transportado pela brisa do entardecer. O sol punha como que uma toalha de ouro e fogo sobre a paisagem.















